Fotografia de diversas câmeras de segurança, algumas pretas, outras brancas, em uma parede. Todas estão viradas para a mesma direção, esquerda abaixo.

Edição 209 – Privacidade de dados no controle da Covid é alvo de debate

Vacinas chinesas e gigantes de tecnologia na China

A privacidade de dados que lute. Os aplicativos para controle de possíveis contaminados por Covid-19 foram um dos principais destaques da pandemia na China. O sistema de rastreamento de contatos se baseia em um código QR verde, amarelo ou vermelho que identifica o risco de contaminação de cada pessoa e assim libera (ou não) seu acesso a transportes e estabelecimentos. Na segunda-feira (13), surgiram denúncias de alterações propositais na emissão dos códigos na capital de Henan, Zhengzhou. O foco teria sido em usuários que pudessem viajar até a cidade e receber depósitos deixados em bancos com problema de liquidez, conta a matéria da Sixth Tone. Com códigos vermelhos, eles não teriam permissão para viajar e ir aos bancos. 

Não à toa, a notícia causou polêmica nas redes sociais chinesas e levou a muitas discussões sobre quem controla o aplicativo e como proceder se as autoridades usarem esses dados para outros fins que não são relacionados à pandemia. Vale ler a edição recente do ChinaAI sobre a questão e a tradução, do mandarim para o inglês, de uma reflexão sobre o tema. Um texto no Global Times também criticou a situação e o governo local por possível abuso de poder, dizendo que o ocorrido coloca em risco a confiança no sistema e viola a nova lei de proteção de dados, exigindo uma investigação das autoridades responsáveis. Desde 2020, o uso desses aplicativos vem sendo discutido por questões de privacidade e proteção de dados pessoais.

Colhendo os frutos da pesquisa. Para driblar as sanções estadunidenses ou ao menos diminuir seus efeitos negativos, a Huawei está focada em licenciar suas patentes — conceder a outras empresas o direito de uso mediante pagamento— nas tecnologias 4G e 5G. Em comunicado, a empresa falou que a maioria dos smartphones de ponta vendidos hoje contém tecnologia sua, inclusive os da rival Samsung. Mas a Huawei não está interessada apenas em celulares: carros inteligentes também são um mercado em expansão. No mundo, já há mais de 8 milhões de veículos conectados à rede graças a tecnologias da empresa, que espera ver esse número triplicar nos próximos anos, segundo o South China Morning Post.

Cerca de 20% da receita da Huawei é investido em pesquisa e desenvolvimento. O Global Times informou que é a empresa chinesa que mais pede patentes na China e no mundo. De acordo com o SCMP, ela tem mais de 110 mil patentes internacionais ativas e ano passado entrou com pedido para o registro de mais 7 mil, tendo liderado o ranking global nos últimos cinco anos. Aliás, o GizmoChina noticiou que a Huawei pediu sua primeira patente de computação quântica, um chip e um aparelho. O computador quântico deve se tornar o próximo grande salto tecnológico na próxima década.

Qual o impacto ambiental da estratégia de testagem em massa contra Covid-19 atualmente em voga na China? Segundo pesquisadores ouvidos pelo The Japan Times, a instalação de inúmeros quiosques de testagem e a realização de milhões de testes diariamente gera uma quantidade de lixo hospitalar pelo menos seis vezes maior do que o normal. O gasto para lidar com a logística em torno do processamento desse tipo de resíduo é bastante alto e são poucas as cidades que têm capacidade de arcar com ele sem gerar pressão no orçamento. Isso leva à pergunta: como ou o que estariam fazendo as cidades pequenas e médias? A maior suspeita é de que estejam aterrando o lixo gerado pelos testes de Covid-19 a despeito dos riscos de contaminação ambiental. Por outro lado, investir em soluções sustentáveis para um problema passageiro pode acabar retirando recursos que poderiam ser melhor alocados em outros projetos de saúde pública. Não é fácil.

O terceiro navio porta-aviões da marinha chinesa foi inaugurado na última sexta-feira (17). Batizado de Fujian, a embarcação levou cerca de quatro anos para ficar pronta e foi a primeira do tipo a ser completamente produzida no país. O Fujian passou a ser o maior navio das forças armadas da China, tendo mais capacidade de transporte de aeronaves do que os outros dois porta-aviões anteriores, Liaoning e Shandong. Antes de entrar em operação, porém, o navio precisa passar por uma série de testes. Ainda na pauta militar, no domingo (19) o Ministério da Defesa da China divulgou ter feito novos testes antimísseis com êxito. Baseada em terra, a tecnologia permitiria atingir mísseis balísticos em sua trajetória.

X9 do bem? Em junho, o governo central da China anunciou a prorrogação do programa, criado em 2017, que recompensa financeiramente cidadãos que denunciarem pessoas envolvidas em atividades que atentem contra a segurança nacional do país. Os informantes podem receber até 100 mil renminbi (aproximadamente 77 mil reais) de Pequim por cada caso. Medida semelhante também foi adotada em Hong Kong, onde o valor da recompensa pode chegar a HK$ 800 mil (cerca de R$ 525 mil) por denúncias de pessoas que possuam bandeiras e banners com slogans dos protestos que assolaram a cidade entre 2019 e 2020.

Racismo sob encomenda. Na última segunda-feira (13), a BBC África lançou o documentário Racism for sale. Nele, revelou um esquema operado por chineses no Malawi que contratam jovens negros para participar de vídeos cantando, dançando e repetindo palavras em mandarim. Embora algumas das mensagens sejam inócuas, em outros vídeos os jovens são instruídos a repetir frases racistas contra negros. Distribuídos em plataformas como Weibo e Huoshan, os vídeos chegam a atingir milhões de visualizações, e cada encomenda custa entre US$ 10 e US$ 70. Embora as crianças envolvidas recebessem apenas US$ 0,50 por dia de filmagem, um dos maiores produtores desses conteúdos disse que essa é uma forma de ajudar os pobres e disseminar os valores chineses. A newsletter Panda Paw Dragon Claw analisou o assunto e destacou as reações entre representantes das diplomacias chinesa e de países africanos. Runako Celina, uma repórter envolvida no documentário, escreveu um texto sobre a investigação e suas experiências como mulher negra na China.

Sem contato. Depois de ter encerrado a visita à região autônoma de Xinjiang  em maio dizendo que não foi à China fazer investigações, Michelle Bachelet mudou o tom. A alta comissária para Direitos Humanos da ONU anunciou que não concorrerá a um segundo mandato no cargo e, na sequência, admitiu que não conseguiu conversar sozinha com uigures durante sua visita. A fala de Bachelet ganhou forte repercussão e aconteceu na sequência de críticas, como contamos aqui, por parte de especialistas que viram em seu relatório o eco do discurso oficial de Pequim.

A Câmara de Comércio da União Europeia na China divulgou, nesta segunda-feira (20), uma pesquisa que mostra que 23% das empresas europeias ouvidas consideram deixar de atuar no mercado chinês. Os principais desafios citados pelas firmas foram a política de combate à pandemia de Covid-19, incertezas quanto ao desempenho da economia chinesa e a geopolítica global, especialmente após a invasão da Ucrânia. Conforme análise de Ian Johnson para a Foreign Affairs, o estremecimento das relações entre Pequim e o bloco europeu se deve sobretudo à política econômica do governo central nos últimos anos e à sua política externa após o início da guerra no leste europeu. No final de maio, Wu Hongbo, enviado especial do governo chinês para a Europa, fez um tour de três semanas por países da UE a fim de reatar laços com a região, que é economicamente estratégica para o país asiático. Vale notar que, no início do ano, foi firmada uma parceria com a França para a construção de infraestrutura no leste da Europa, no sudeste asiático e no continente africano, o que impulsionaria a Iniciativa Cinturão e Rota.

Com a inflação correndo solta no mundo, produtos chineses podem receber uma trégua das tarifas comerciais dos Estados Unidos, implementadas pelo governo de Donald Trump. A ideia, aventada pelo atual presidente Joseph Biden, já demonstra ter algum apoio em Washington, como da Câmara de Comércio dos Estados Unidos e de economistas como Lawrence Summers. Para eles, a medida é necessária para aliviar a desvalorização dos rendimentos dos estadunidenses em uma inflação que atingiu 8,6% em maio de 2022. Eles não estão sós: segundo uma avaliação de pesquisadores do Peterson Institute for International Economics, a eliminação de algumas tarifas de produtos chineses poderia levar a uma economia de US$ 797 para os lares estadunidenses, uma previsão contestada por alguns dentro da própria Casa Branca. Em artigo para o The New York Times, Jim Tankersley, Ana Swanson e Alan Rappeport discutem o que isso poderia significar na guerra comercial entre os dois países e o custo político caso a ideia seja, de fato, implementada.

Como anda o fim do financiamento de usinas a carvão no exterior? A meta, anunciada em setembro do ano passado na Assembleia das Nações Unidas por Xi Jinping, pegou o mundo de surpresa, e não foi por menos. Em março de 2022, quatro ministérios chineses emitiram diretrizes sobre o caminho para alcançar esse objetivo, analisadas recentemente em um relatório do Centre for Research on Energy and Clean Air (CREA). Segundo a avaliação das diretrizes, a meta chinesa já levou ao fechamento ou paralisação de 15 projetos que estavam em fase de pré-construção, e outras 45 usinas nesse estágio também podem ser reexaminadas. Entre as que já estão em funcionamento, 18 usinas podem passar por uma “repaginada”, ou seja, receber melhoramentos tecnológicos visando a eficiência energética e a redução das emissões, e outras 32 podem ser engavetadas, já que ainda existem só nos papéis.

Mas as diretrizes emitidas possuem algumas áreas cinzentas que podem atrasar a transição energética em países como a Indonésia, especificamente por causa de seus parques industriais. Vale separar um cafezinho e ler a análise mais aprofundada de Isabella Suarez, uma das pesquisadoras do CREA, em um artigo para o The Third Pole.

Os protestos encabeçados por estudantes na China não pararam com o que aconteceu em Tiananmen em 1989, como resume Alex Yu para o China Digital Times ao recontar os principais movimentos estudantis da década de 1990 até os dias atuais. Apesar de crescente censura, estudantes nunca deixaram de se organizar nos campi (ou fora deles) para discutir questões que iam desde direitos de minorias étnicas, condições dignas de trabalho, #MeToo, revolução marxista e direitos LGBTQIA+. O interessante na recapitulação proposta por Yu é ver como lideranças estudantis foram sofrendo penas cada vez mais duras — mais anos de detenção ou expulsas de universidade de renome — e a diversidade regional desses protestos, passando pela Mongólia Interior, Hebei, Guangdong, e mais.

(Re-)escrevendo a história. No início do próximo ano letivo, em setembro, estudantes de Hong Kong devem aprender que o território nunca foi uma colônia britânica. Isso porque os novos livros didáticos em processo de aprovação seguem o discurso de Pequim de que a China nunca concedeu a soberania de Hong Kong aos britânicos, que teriam apenas imposto suas regras coloniais sobre um território ocupado. Ainda segundo os novos livros, os protestos de 2019 seriam atos violentos de terrorismo, secessão, subversão e conluio com poderes estrangeiros. O assunto causou certa comoção na mídia e entre acadêmicos, mas, segundo representantes do pensamento de Pequim, trata-se apenas de corrigir um entendimento equivocado de fatos históricos.

Falecimento. Sun Jian, um dos principais cientistas de inteligência artificial na China, faleceu repentinamente aos 45 anos. Sun trabalhou na área de pesquisa da Microsoft Asia até 2016, quando foi para a startup Megvii, onde era chefe do departamento de pesquisas de IA. A empresa chinesa é líder em tecnologias de reconhecimento facial e deep learning. Em 2021, Megvii foi sancionada (junto com uma série de outras empresas) pelos EUA após acusações de envolvimento no uso do seu software para vigilância de uigures em Xinjiang.

reforma electoral en Hong Kong

Zheng He foi um grande explorador chinês do século XV. Sob seu comando, o império da China chegou a praticamente todos os cantos do mundo. Esta seção é inspirada nele e te convida a explorar ainda mais a China.

Repositório: o think tank Carnegie Endowment for International Peace está com um projeto de textos sobre a China no mundo, convidando pesquisadores (inclusive brasileiros) para escrever sobre temas das suas regiões. O repositório tem diversos textos, alguns com traduções do idioma local.

Sorte: em oito minutos, um vídeo da Goldthread conta tudo sobre os biscoitos da sorte chineses (que são japoneses e também estadunidenses).

Xiaohongshu: um deepdive da newsletter Chinese Characteristics explica porque o Xiaohongshu, conhecido como o “Instagram chinês”, não é o Instagram.

Música: hora de aumentar o volume e curtir a música da banda punk 普通隊長Captain Ordinary!

Bora ler: o SupChina compilou uma lista de livros chineses com temática LGBTQIA+ disponíveis em inglês.

Comunidades em redes sociais: ao invés do Orkut, muitos chineses usam o Douban para formar comunidades. Algumas bem bizarras, como a de pessoas que fingem ser cogumelos, foram assunto do RadiiChina.

Imagem de fundo vermelho com texto em branco. Caracteres chineses cujo pinyin é 紫腚能行 zǐ dìng néng xíng.
Nossa sugestão da semana vem do SupChina. A expressão 紫腚能行 zǐ dìng néng xíng é usada para dizer que alguém é capaz de cumprir algo. Vale clicar aqui e ler por que esse chengyu significa, literalmente, bundas roxas

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