Imagem da capa do passaporte dos EUA com um fundo preto.

Edição 261 – Autoridades dos EUA batem ponto na China

Vacinas chinesas e gigantes de tecnologia na China

Mais mulheres no partido chinês? No dia 30 de junho, o Departamento de Organização do Comitê Central do PCCh anunciou o tradicional boletim estatístico interno do partido. Divulgado anualmente um dia antes do aniversário da fundação do partido, ele atualiza números como o de membros mulheres na organização. Atualmente, elas representam 29,9% de todos os filiados e 45,5% dos 2,45 milhões de novos membros. O Beijing Channel fez, novamente, uma análise gráfica do boletim. Quando ocorreu a plenária do Politburo, em agosto, indicamos a baixa representatividade feminina nos altos escalões políticos da China.

Fim do crackdown da internet? Autoridades chinesas anunciaram a aplicação de uma multa de cerca de 7 bilhões de renminbi (aproximadamente R$ 5 bi) no Ant Group devido a violações de leis e regulamentações em diversos setores, da proteção ao consumidor ao combate à lavagem de dinheiro. A medida põe fim a anos de ação governamental para readequação e reestruturação da empresa e, como especula a Reuters, pode ser o capítulo final do crackdown no setor de tecnologia e internet na China. De fato, o mercado financeiro recebeu bem a notícia e as ações da empresa se valorizaram após o anúncio da multa bilionária. Em 2021, o Alibaba, sob o qual o Ant Group fica, recebeu uma multa de 2,8 bilhões de dólares com base na legislação antitruste do país.

Ok computer? Na última sexta-feira (7), durante a Conferência Mundial de Inteligência Artificial, em Shanghai, o governo da China anunciou que o Instituto Chinês de Padronização Eletrônica, parte do Ministério da Indústria e Tecnologias da Comunicação, vai implementar um padrão nacional para grandes modelos de linguagem (LLMs). O projeto conta com a colaboração de gigantes da tecnologia como Baidu, Huawei, 360 Security Technology e Alibaba. A meta do governo é minimizar impactos negativos das LLMs (que já são uma realidade) e, ao mesmo tempo, alavancar o uso dessa tecnologia nas indústrias. Como conta a Sixth Tone, há uma corrida para conquistar o mercado corporativo, que espera um aumento da produtividade por meio de serviços que criam, resumem, ampliam e traduzem conteúdos. Não houve nenhuma declaração sobre o que esperar do novo padrão nacional, mas vale conferir este fio do pesquisador Matt Sheehan sobre uma pesquisa nova acerca da governança do setor de IA na China.

Long time no see? Menos de um mês depois da visita de Antony Blinken, secretário de Estado estadunidense, foi a vez de Janet L. Yellen ir a Beijing para apaziguar as relações bilaterais. Em uma verdadeira maratona de apenas dois dias, a secretária do Tesouro dos EUA se reuniu com figuras chave como o premier Li Qiang e seu vice He Lifeng, além do ministro das Finanças Liu Kun, como apuraram Alan Rappeport e Keith Bradsher para o The New York Times.

Da parte norte-americana, a pauta foi o tratamento de empresas do país em solo chinês, e supostas coerções econômicas que elas estariam sofrendo, além da limitação de Pequim à exportação de gálio e germânio, dois minerais fundamentais para a produção de semicondutores, conta Phelim Kine para o Politico. Já o lado chinês denunciou o impacto das sanções e restrições impostas pelos Estados Unidos, como a limitação de acesso a semicondutores usados em computação avançada com aplicações militares. Analistas internacionais viram como positiva a visita de Yellen, ainda que não tenha produzido nenhuma mudança drástica nas relações bilaterais.

Aproveitando o pique de visitas, o enviado especial para o clima dos EUA, John Kerry, viaja para a China no domingo (16) e fica até quarta-feira (19). Como discute Shi Jiangtao para o South China Morning Post (SCMP), a viagem de curta duração deve focar no metano e no compromisso conjunto que diversas nações se fizeram, junto com os EUA e China, de reduzir sua emissão até 2030. A redução de emissões de carbono e termelétricas a carvão no exterior também devem estar na pauta de Kerry com sua contraparte chinesa Xie Zhenhua, com quem possui uma relação de trabalho de longa data.

Procurado. Na última segunda-feira (10), o governo dos Estados Unidos revelou que, desde novembro de 2022, o co-fundador do think thank Institute for the Analysis of Global Security (IAGS) Gal Luft é acusado de ser um agente chinês nos EUA e traficante de armas e petróleo, entre outros crimes. Durante o governo Trump, Luft teria agido para influenciar decisões políticas em favor do governo chinês e atuado como negociador no comércio de armas entre China, Irã e países do Oriente Médio. Segundo sua defesa, Luft estaria sofrendo  perseguição política por ser uma testemunha-chave em acusações de corrupção contra a família do presidente Joe Biden. Cidadão estadunidense e israelense, ele havia sido detido no Chipre em fevereiro deste ano, mas desapareceu após receber liberdade condicional. Luft publicou diversos textos sobre as relações entre EUA e China em veículos acadêmicos e na imprensa chinesa, como no SCMP.

Na ONU. A presença chinesa em diferentes órgãos das Nações Unidas não é uma pauta nova por aqui. O chinês Qu Dongyu, diretor da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO, em inglês), foi reeleito no início do mês para atuar até 2027 — inclusive com apoio brasileiro. Ele comanda a instituição desde 2019, inaugurando a presença chinesa na chefia da FAO e enfrenta algumas críticas de países ocidentais por não ser tão acessível, segundo conta esta matéria do SCMP. Em 2021, Qu liderou a criação do World Food Forum.

Não é só luxo: com a maior presença na ONU, a China também se posiciona pressionando por cortes de orçamento na instituição. No mês passado, o país propôs um corte de 150 milhões de dólares do orçamento das operações de paz (alinhados com a visão dos EUA de reduzir os gastos do departamento), conta Colum Lynch. A presença chinesa nas missões de paz da ONU é marcante, tanto em número de soldados enviados quanto em dinheiro. Enquanto isso, o China Digital Times resumiu as pautas sobre a participação chinesa no Conselho de Direitos Humanos da ONU no último mês e o apoio de outras nações à abordagem do país sobre o tema (alvo de muitas críticas de ativistas e governos por aí).

Nova parceria na área: na segunda-feira (10), Xi Jinping encontrou-se com o primeiro-ministro das Ilhas Salomão, Manasseh Sogavare, em Pequim. A ocasião foi utilizada para formalizar uma parceria estratégica abrangente entre os dois países, cujas relações vêm se intensificando nos últimos anos, e uma penca de acordos bilaterais, inclusive um polêmico sobre cooperação policial. O tratado principal pode ser lido na íntegra em inglês aqui. O The Diplomat publicou uma breve análise sobre o tema e as implicações para a geopolítica regional.

Era sol que me faltava! Novamente, nos últimos dias a China marcou temperaturas recordes, registrando termômetros com mais de 35°C por dias seguidos em diversas regiões do país. Isso fez com que algumas cidades disponibilizassem seus abrigos antiaéreos como proteção contra o sol e o calor intensos, segundo a AP News. Pequim chegou a suspender trabalhos realizados ao ar livre e declarou alerta vermelho no sistema de monitoramento de temperatura. Como se já não bastasse o calor intenso, muitas partes da China também têm sofrido com inundações: a província de Hunan, por exemplo, teve que transferir mais de 10.000 pessoas com urgência devido aos riscos causados pelas chuvas.

O assassinato de duas jovens em um shopping de Hong Kong no início de junho levou a mídia a questionar a falta acesso a cuidados de saúde mental na rede pública da cidade — o assassino tinha um histórico de problemas psicológicos. Menos atenção foi dada às características das vítimas: uma mulher de aparência masculina, a primeira a ser atacada, e sua namorada, que morreu tentando salvá-la. Como reporta o The China Project, a resistência midiática e policial em declarar corretamente a relação entre elas, caracterizando-as como “amigas” ou apenas “duas mulheres” não é apenas uma forma de invisibilização de pessoas LGBTQIAP+, mas também uma escolha por não explorar outras possíveis motivações para o crime: o preconceito contra lésbicas e mulheres de aparência masculina. Embora pesquisas recentes indiquem que a população apoia mais direitos para casais do mesmo sexo, Hong Kong é uma sociedade conservadora — e a mídia reflete isso, como demonstrado na cobertura misógina do caso Abby Choi.

reforma electoral en Hong Kong

Filme: o clássico O Tigre e o Dragão estreou há 23 anos e é, sem dúvidas, um dos filmes mais memoráveis produzidos na China. Este fio no Twitter conta excelentes histórias dos bastidores e da produção.

Universidade dos sonhos: eis que um grupo de alunos resolveu criar uma universidade fictícia online e se tornou um viral na internet. Com site, departamentos, professores e nada mais, nada menos que Confúcio como um alumni, a Sixth Tone conta essa história para gente.  

It’s a love story, 宝贝: não somos swifties por aqui, mas essa versão remix feita pelo rapper Young da música Love Story, da Taylor Swift vale a pena.

Pós pandemia: com a reabertura das fronteiras de forma mais amigável para turistas, uma série de pesquisadores estão podendo voltar para a China. Um deles é Graham Webster, do DigiChina, que escreveu quatro impressões que teve ao retornar após 4 anos.

Mais um capítulo: no contexto da disputa global por semicondutores, “O melhor chip”, em tradução livre, é uma série chinesa sobre a produção de chips e a indústria de semicondutores com uma trama novelesca e patriótica mais uma pitada de ficção científica.

Estudar: além da Slow Chinese (que já apareceu por aqui), agora tem a newsletter em português Plano Mandarim focada em discutir o idioma e seus usos práticos no dia a dia.

 

Essa dica encontrada pela equipe do Observa China é uma série documental de três episódios produzida pela CCTV em 2016 sobre os restauradores de obras de arte que trabalham na Cidade Proibida.

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