Fotografia em cores de arrozais chineses ao sol. Vêem-se também uma pessoa caminhando e uma cabana rústica.

Edição 178 – A ausência de Xi no G20 e o papel da China na COP26

Vacinas chinesas e gigantes de tecnologia na China

Clique para adicionar ao seu carrinho. O governo chinês lançou na terça-feira (26) um plano de desenvolvimento para o setor de e-commerce, focado nos próximos cinco anos. A movimentação faz parte das regulações (elas, novamente) que nascem da lei antimonopólio, da qual já falamos. Os responsáveis pela elaboração do plano são o Ministério do Comércio, a Comissão Central para Assuntos de Ciberespaço e a Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma da China. O setor de comércio online — que se desenvolveu muito rápido nos últimos 20 anos — é extremamente importante para a economia chinesa, chegando a faturar 32 trilhões de renminbi em 2020. Para 2025, a expectativa é de que cresça 23,6%, atingindo 46 trilhões de renminbi (ou cerca de 7,2 trilhões de dólares) e gerando um total de 70 milhões de empregos. O plano prevê também regulações de livestreaming, incentivo do setor no campo e regulação da coleta de dados pessoais. Aliás, a lei chinesa entrou em vigor nesta segunda-feira (1).

Outro documento importante, este lançado pelo Conselho de Estado, é a estratégia nacional para normas técnicas — como o ISO. Para analisar os impactos das mudanças propostas, o think tank Carnegie lançou um artigo, abordando também seus efeitos sobre padrões internacionais.

Vem aí uma nova empresa gigante? De acordo com matéria do Asia Nikkei, o governo chinês estaria reestruturando o setor de produção de terras raras. Ainda não está claro que reestruturação é essa, mas parece que o foco é a fusão de três empresas estatais do setor o que poderia levar à criação de uma empresa que dominaria de 40% a 70% do mercado nacional. A China tem cerca de 40% das jazidas mundiais e fornece próximo de 80% de todos os elementos de terras raras utilizados globalmente, segundo o US Geological Survey. Há poucos meses publicamos um texto sobre o tema no nosso site, não deixe de conferir!

Sabe aquela pessoa que, de repente, está em todas? Já falamos aqui de Wang Huning, o mais importante intelectual da liderança chinesa nos últimos 30 anos, que formulou políticas públicas, pensamentos e teorias  dos governos Jiang Zenmin, Hu Jintao e Xi Jinping. O Reading the China Dream traduziu (para o inglês) mais um texto de Wang (de 1994), dessa vez sobre a expansão e soberania da cultura chinesa. Para quem estuda percepções e atuação do governo da RPC no soft power, as reflexões de Wang são uma fonte rica. É possível encontrar paralelos com questões recentes de regulação do setor de entretenimento. O teórico, que viveu um período nos EUA, começou a chamar atenção de países ocidentais em 2017, após o último Congresso do Partido, e já foi apelidado de “Kissinger chinês”.

Wang é um nome cotado para a possível sucessão de Xi Jinping a secretário-geral do Partido, mas é candidato azarão no bolão de apostas: ele não tem experiência em governos e já está na idade de se aposentar da vida pública pelas regras atuais (Wang tem 66 e a idade de aposentadoria do Politburo é 68). Em seu favor para o cargo está a visão, compartilhada com Xi, sobre a governança do partido e a relação entre Estado e PCCh. Se isso aguçou sua curiosidade, circulou recentemente esse perfil sobre ele publicado na Palladium. Vale um chazinho e uma leitura sem pressa.

Às vésperas da COP26, que começou no domingo (31), a China divulgou novas contribuições nacionais para combater o aquecimento global. Entre outras metas, o governo se comprometeu a atingir o pico de emissões de CO2 antes de 2030, adiantando o prazo anterior em alguns anos. Especialistas ouvidos pela Al Jazeera, no entanto, criticaram as medidas pouco ambiciosas e a falta de novidades por parte de Pequim. A ausência física de Xi também foi lembrada pelo The Guardian. O documento completo apresentado à ONU pode ser lido em inglês aqui. Sobre a atual política ambiental internacional e o que esperar da China, não deixe de ler a análise (em inglês) de Sam Geall publicada pelo Lowy Institute.

Falando em meio ambiente, na reunião do G20 o presidente Xi Jinping frisou que os países desenvolvidos devem liderar os esforços globais pela redução de emissões de C02. De fato, no comunicado final do evento, as 20 maiores economias do mundo se comprometeram a acabar com o financiamento do carvão. Como havíamos antecipado aqui, Xi não compareceu ao evento e foi representado pelo chanceler chinês, Wang Yi. Neste texto, o The New York Times fala que a Covid-19 é apenas um dos motivos para a ausência do líder asiático. Ele apareceu por videochamada no sábado (30), quando ele ressaltou a necessidade de uma melhor distribuição de vacinas para o combate à pandemia, defendendo sua quebra de patentes e a liderança da OMS no processo de transferência de tecnologia para países em desenvolvimento, conforme noticiou a DW.

A China acusou os EUA de estarem “sabotando” a paz no estreito de Taiwan. O ministro das Relações Exteriores, Wang Yi, aproveitou a reunião do G20 também para criticar movimentos recentes da União Europeia com relação a Taiwan, conforme noticiou o SCMP. Na semana passada, a líder taiwanesa Tsai Ing-wen confirmou, em entrevista à CNN, que tropas estadunidenses estão na ilha na condição de instrutores militares, o que foi duramente condenado por Pequim. Essas declarações vieram na esteira de um pedido por parte dos EUA de que a ONU aceite a participação de Taipei na organização, o que foi defendido pela UE, cujo parlamento também condenou a “beligerância” de Pequim e apoiou laços mais próximos com a ilha. Para quem quiser entender mais sobre a disputa entre Pequim e Taipei em torno da participação e representação na ONU (o que explicamos na edição passada), vale a leitura da reportagem publicada pela Al Jazeera sobre o assunto.

Do outro lado do mundo, avançam os estudos de viabilidade de um tratado bilateral de livre comércio com a China por parte do governo uruguaio. Como já contamos por aqui, o Uruguai manifestou sua intenção de firmar um acordo comercial com Pequim à revelia do Mercosul. Os estudos de viabilidade devem ser finalizados até o fim do ano para que as negociações comecem já no início de 2022. De acordo com a análise do Centro Latinoamericano de Análisis Estratégico, a ideia é que um tratado seja assinado com a China antes de uma possível troca de governo no Brasil, para contar com o apoio de Bolsonaro à erosão do Mercosul. Aliás, a Nodal publicou uma análise sobre os impactos do acordo Uruguai-China para o bloco que merece um cafezinho.

China permanecerá na tolerância zero à Covid? Quase dois anos se passaram e, na contramão da maioria dos países, a China segue endurecendo as regras de contenção, mantendo sua política de tolerância zero ao vírus. Apesar do esforço, alguns casos de Covid-19 seguem pipocando pelo país e, a cada novo surgimento, medidas rigorosas são adotadas. Um exemplo foi a interrupção de dois trens de alta velocidade que se deslocavam para Pequim na semana passada: ao detectarem casos nas origens (Shanghai e a província de Jiangxi), as autoridades paralisaram os veículos no meio do caminho para que todos os passageiros fossem testados. Um único caso na Disney fechou o parque em Shanghai. Em Pequim, onde normalmente o controle é ainda mais rigoroso, o surgimento de um caso na região central fez com que bares, cinemas, casas de show e teatros fossem fechados temporariamente. Os hotéis dos dois distritos mais centrais estão proibidos de sediar casamentos, convenções e eventos. 

Vale lembrar que isso tudo vem acontecendo poucos meses antes no início da Olimpíada de Inverno, na capital, o que deve recrudescer o controle. Diante dessas novas ações, tem crescido novamente o debate sobre até quando o governo do país vai manter essa política de tolerância zero, já que gestões que vinham apostando neste modelo, como Singapura, passaram a flexibilizar mais o controle ao vírus. Seguimos acompanhando.

Decepcionados, mas não surpresos. Conforme já era esperado há algum tempo, na última semana foi aprovada uma nova lei de censura para o cinema honconguense. Agora, a exibição de filmes que de alguma forma “apoiem, glorifiquem, encorajem ou incitem atividades que possam pôr em perigo a segurança nacional” pode resultar em penas de até três anos de prisão e HKD$1 milhão em multas. Um dos legisladores que aprovaram a nova lei, Ma Fung-kwok, defendeu-a afirmando que as regras não são muito diferentes daquelas vigentes durante o período colonial britânico, então o cinema local deve sobreviver. Para saber mais sobre a sétima arte em Hong Kong e seu papel para a identidade local, vale a leitura desta análise de Daniel Gualberto da Silva, pesquisador na UNB.

Meta-Great firewall. No último sábado (30), chamou a atenção um artigo publicado pelo Instituto Chinês de Relações Internacionais Contemporâneas, um think tank afiliado ao governo. No texto, pesquisadores indicam os possíveis riscos à segurança nacional representados por uma futura popularização do metaverso. De acordo com uma reportagem do SCMP, os pesquisadores destacaram que, embora as características tecnológicas e padrões a serem usados nesses ambientes ainda estejam no início de seu desenvolvimento, já é possível identificar uma gama de riscos, desde ameaças à cibersegurança até uma “hegemonia tecnológica” entre países em desenvolvimento e desenvolvidos.

O assunto virou pauta no fim da última semana, quando Mark Zuckerberg anunciou que a empresa responsável pelo Facebook agora se chama Meta, para destacar seu foco no desenvolvimento do metaverso. Que a China se preocupe com a segurança nacional nesses ambientes não é surpresa: o país tem rígidos mecanismos de controle para conteúdos disponíveis na internet, sobre os quais sempre tratamos por aqui. Além disso, jogos que criam ambientes com características do metaverso já são usados para manifestações políticas: quando a Covid-19 interrompeu o ciclo de manifestações em Hong Kong, muitos militantes passaram a se expressar no jogo Animal Crossing.

Tá pago. Com frequência, temos falado aqui sobre as mudanças promovidas pelo governo chinês nas políticas educacionais. A onda da vez é focar nas práticas esportivas. Na última terça-feira (26), o governo anunciou novas medidas para incentivar a atividade física entre jovens em uma entrevista coletiva, destrinchada  neste texto do SupChina. O dirigente responsável pelo departamento de esportes para adolescentes da Administração Geral do Esporte na China, Jiāng Qìngguó, reforçou como a medida é uma oportunidade para que estudantes desenvolvam habilidades esportivas para fins competitivos, já que a China é uma potência olímpica. Há ainda uma intenção do governo em estimular a formação de novos educadores físicos por existir um déficit desses profissionais no país. Este texto do The Japan Times fala sobre como mães estão colocando seus filhos para praticar esportes como forma de lidar com a lacuna aberta desde que Pequim proibiu atividades extracurriculares este ano. 

X9. Você talvez tenha lido sobre o escândalo que recaiu sobre o pianista Li Yundi no final de outubro. Resumindo, ele foi preso por contratar os serviços de uma prostituta. Não é um crime incomum e um bocado de famosos se queima assim. Se você ficou se perguntando como a polícia chinesa consegue estar tão atenta a crimes de tal potencial ofensivo, vale esclarecer que ela não está: os fofoqueiros estão. Atuantes há pelo menos uma década sob a alcunha de Chaoyang public, os informantes públicos dedicados a dedurar celebridades para policiais estão despontando (jocosamente) como “a quinta maior agência de inteligência do mundo”. Esse tipo de ação tem uma extensa história na China, como lembra este longo texto do South China Morning Post. Especula-se que esses vigilantes tenham tanto sucesso em sua atuação junto à polícia por conta do desejo do governo de tirar de circulação figuras públicas consideradas “problemáticas”. A respeito da alcunha: Chaoyang é o maior distrito de Pequim — e foi a delegacia de Chaoyang que prendeu Li Yundi. 

reforma electoral en Hong Kong

Zheng He foi um grande explorador chinês do século XV. Sob seu comando, o império da China chegou a praticamente todos os cantos do mundo. Esta seção é inspirada nele e te convida a explorar ainda mais a China.

Falando na ONU: confira o artigo exclusivo de Augusto Colório sobre a participação chinesa nas operações de paz das Nações Unidas. 

Inhackeável: pesquisadores chineses conseguiram criar a primeira rede de comunicação quântica. Ainda experimental, essa tecnologia promete canais impossíveis de serem hackeados. Leia mais sobre o assunto no Asia Times.

Gente: as pessoas em Taiwan também precisam ser lembradas além de disputas políticas. A equipe do John Oliver fez um bom trabalho nisso, vale assistir e se divertir.

Axolotl: venha conhecer neste texto da Diálogo Chino a salamandra sagrada que está em extinção no México, mas tornou-se animal de estimação na China.

Cinema: chegou novembro e, com ele, a 6a Mostra de Cinema Chinês de São Paulo. É grátis e é pra todo o Brasil. 不用谢!

A Múmia – O Retorno: cientistas decifraram o enigma das múmias de Xiaohe. Muito bem conservadas apesar dos 4 mil anos, as pessoas mumificadas eram mesmo nativas da própria região e muito cosmopolitas, ao contrário do que se supunha.

Podcast: já falamos no nosso podcast sobre rock chinês. Para seguir na pauta, vale ouvir no Radiolab a fascinante história de como, na década de 90, fitas K7 foram parar na China para serem destruídas e alimentaram a cena musical do país.

Imagem de fundo vermelho, com texto em branco. Caracteres chineses cujo pinyin é Fèi qǐn wàng shí.
Expressão usada quando alguém está tão atribulado pelo trabalho que esquece de coisas básicas como comer e dormir.

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