Fotografia em cores de panorama da cidade de Kiev, capital da Ucrânia, de noite. Em primeiro plano, vê-se o Mosteiro de Kiev-Petchersk. Ao fundo, prédios iluminados.

Foto de Eugene via Unsplash

Edição 192 — Fim da Olimpíada e todos atentos à Ucrânia

Vacinas chinesas e gigantes de tecnologia na China

O fim dos Jogos. Terminou neste domingo (20) a Olimpíada de Inverno de Pequim, “os jogos da bolha”. O grande evento esportivo ocorreu a portas fechadas para evitar novos surtos de Covid-19, seguindo a política de tolerância zero ao vírus adotada pela China. A cerimônia de encerramento contou com a participação de Xi Jinping, ao lado de Thomas Bach, do Comitê Olímpico Internacional. A grande estrela da noite foi Gu Ailing, esquiadora chinesa nascida nos EUA, que levou três medalhas: dois ouros e uma prata. A China obteve seu melhor desempenho em jogos olímpicos de inverno, ficando em terceiro lugar, com 9 ouros, 4 pratas e 2 bronzes. Nesta segunda (21), o Clube de Correspondentes da China publicou um extenso fio em sua conta do Twitter sobre as condições dadas à imprensa na cobertura do evento, falando sobre a piora no espaço para trabalho de jornalistas e descrevendo casos de controle governamental à livre circulação de informações. Em 4 de março, Pequim sediará a Paralimpíada de Inverno.

Outubro está quase aí. Entre eleições no Brasil e o 20º Congresso Nacional do Partido Comunista da China, é bastante notícia de política para acompanhar. É bom começar agora, focando em alguns pontos de atenção. Para revisar como foi o 2021 do PCCh, acompanhado por aquele cafezinho, recomendamos o relatório Party Watch, publicado anualmente pelo Center for Advanced China Research.  Já ao longo deste ano, devemos ver uma dança das cadeiras de cargos e posições de aliados de Xi no partido e no governo. É bom também conferir o que o presidente Xi Jinping destacou para a “Nova Era”, em recente artigo publicado na revista Qiushi (em dezembro) sobre o Estado de Direito socialista na Tracking People’s Daily tem um link para a baixar a versão traduzida (não oficial) para o inglês. Aliás, para entender o discurso oficial sobre o congresso, vai ser importante acompanhar a mídia chinesa, como explica o China Media Project. Não esqueça que as Duas Sessões, a outra importante reunião política do PCCh, inicia na semana que vem.

Prioridades. A alta de casos de Covid-19 em Hong Kong e o colapso do sistema de saúde levaram as autoridades locais a adiarem a eleição do próximo chefe da região administrativa. O pleito, que poderá resultar em um substituto para Carrie Lam, foi transferido do dia 27 de março para o dia 8 de maio, e o prazo para oficialização de candidaturas foi adiado para o período de 3 a 16 de abril. A decisão foi anunciada na semana passada, após a região atingir um número recorde de infecções diárias mas um novo patamar já foi estabelecido nesta segunda-feira (21), com mais de 7.500 novos casos e 13 mortes. Segundo o governo, cerca de 90% das vítimas fatais da atual onda de infecções não foram vacinadas contra a Covid-19.

Aumentando o XP. Com prêmios chegando a 40 milhões de dólares, pode dizer para os críticos que vale a pena jogar videogame, sim. A indústria de eSports na China é o tema deste artigo do The Wire China, que cobre os estrondosos valores e sucesso de audiência desse setor. O The World of Chinese também abordou o tema e contou da inclusão de eSports nos Asian Games 2022, que vai acontecer em Hangzhou. A China é o maior mercado de eSports do mundo e uma fatia enorme do de videogames, com jogos para celular sendo particularmente lucrativos (consoles foram proibidos no país de 2000 a 2015), com destaque para League of Legends.

A regulação na indústria das plataformas online tem sido uma pauta recorrente e atingiu o setor de videogames, como comentamos em agosto e em outubro do ano passado. Uma medida de grande impacto foi o controle de horas para uso de jogos por menores de idade, mas questões políticas sobre o que é conteúdo aceitável nos jogos também afetaram empresas e usuários. Segundo o relatório de 2021 publicado pela associação do setor, o crescimento foi de menos de 7% (havia sido de 20% no ano anterior). Além disso, o governo tem segurado a liberação para novos jogos, como conta Josh Ye no SCMP. Ainda assim, a produção local de jogos de qualidade (categorizados como AAA) fervilha, como mostra essa interessante matéria no Polygon, que entrevistou criadores e desenvolvedores na China.

Xi pede diplomacia. Em conversa por telefone com o presidente francês Emmanuel Macron na última quarta-feira (16), Xi Jinping fez um apelo para que a solução do conflito entre Rússia e Ucrânia se dê por vias diplomáticas, usando mecanismos multilaterais. A conversa entre Xi e Macron aconteceu logo após os dois líderes, separadamente, terem se reunido com o russo Vladimir Putin. Pedindo uma resolução pacífica, o governo chinês tem também enfatizado que os Estados Unidos exageram quanto à ameaça da Rússia em relação à Ucrânia. Vale reler o que falamos na semana passada sobre a posição chinesa a respeito do conflito. A newsletter Panda Paw Dragon Claw conta como a crise chegou às redes sociais chinesas e lembra ainda que a Ucrânia está entre os signatários da Iniciativa Cinturão e Rota. Sabemos que o assunto está mudando de hora em hora e você pode acompanhar novidades nas nossas redes sociais, além da edição da semana que vem.

“Tem bolo pra tu e bolo pro baile inteiro”. Na semana passada, falamos do aniversário de 50 anos das relações diplomáticas entre México e China (aliás, uma errata: diferentemente do que escrevemos, a viagem de Echeverría foi em 1973, um ano após o estabelecimento das relações, e não em 1972). Mas haja bolo para todas as celebrações: a Argentina também comemorou 50 anos de diplomacia com a China no sábado (19). O país está numa boa fase com a República Popular, entrando oficialmente para a Iniciativa Cinturão e Rota. Santiago Cafiero, ministro das relações exteriores da Argentina, escreveu para o El País sobre a dinâmica histórica e o momento atual.

E a outra fatia do bolo vai para os EUA: hoje (21) também são 50 anos da notória visita do presidente Nixon a Pequim — já virou até ópera. O tema é objeto de diversas análises (para quem quer o resumo histórico, tem este vídeo do SCMP), especialmente pelo momento atual das relações entre os países, e comparações para o Biden ficar atento. No Politico China Watcher tem gente se perguntando se foram os EUA que se saíram mal na história. Recomendamos também esta compilação de registros audiovisuais feitos pela delegação de Nixon durante a visita.

Xinjiang. A pauta envolvendo Direitos Humanos na China segue em alta. O think tank estadunidense Atlantic Council publicou um relatório que mostra um braço do Banco Mundial atuando no financiamento de projetos na região em que o controle do estado sobre os uigures levou a acusações de trabalho forçado e de descumprimento dos direitos humanos. Ainda sobre Xinjiang, a Organização Internacional do Trabalho também publicou um relatório, este falando em forte preocupação com o tratamento dado à minoria étnica na região. O tema deve seguir quente com o início na próxima segunda (28) do Conselho de Direitos Humanos da ONU.

Após pressão popular, o governo da província de Jiangsu anunciou, na última quinta-feira (17), uma investigação sobre a situação da “mulher acorrentada” do condado de Feng. O caso ganhou o mundo no final de janeiro, quando um vídeo postado em redes sociais mostrou uma mulher, mãe de oito crianças, vivendo em condições precárias, acorrentada e aparentando problemas mentais. O episódio causou grande reação popular e se destacou por envolver muitos temas delicados, como tráfico humano, o descaso de governos locais em investigar denúncias, dificuldades em conseguir divórcios e a situação das mulheres na China rural. Até então, o governo central havia evitado comentar o caso, censurando postagens sobre o assunto e detendo mulheres que foram ao vilarejo prestar socorro à vítima. Apesar disso, jornalistas independentes fizeram esforços de investigação, com limitado sucesso nem mesmo o nome da vítima é conhecido.

A justiça do caranguejo. O que acontece quando um comerciante e um cliente se desentendem por conta de uma venda online? Eles vão para a “corte do caranguejo”. Ano passado, o pessoal da Chaoyang Trap relatou como disputas em sites de compras na China cada vez mais são resolvidas por um tribunal virtual: os dois lados apresentam seus argumentos e provas, que são avaliados pelo júri, e o resultado final é anunciado por um juiz, que, no caso do Alibaba, é um caranguejo de toga e peruca. Além de sites de compras, o modelo é adotado por outros serviços, como em casos de acusação de plágio no WeChat. A Wired fez uma reportagem recente sobre essas estratégias de mediação de conflitos chinesas e como elas ajudam a construir confiança entre os usuários das plataformas algo fundamental em um mercado que movimentou quase R$ 12 trilhões em 2020. Além de resolver 95% das disputas que chegam à sua corte, o caranguejo também inspirou a criação de tribunais virtuais promovidos por governos locais para resolver diferentes tipos de disputas surgidas na internet.

O amor tem currículo. A pressão por casamento é algo recorrente na China, como falamos por aqui com frequência. É comum pais, amigos e familiares marcarem  encontros às cegas para “ajudar” ou forçar os solteiros a encontrarem seus pares. Mas como funcionam os serviços de namoro no país asiático? A Gushi traz a história de May, uma mulher de 30 anos que é levada por uma amiga para um evento de  encontro entre solteiros. O relato de May mostra o quanto a busca pelo “par perfeito” é mais próximo de um contrato do que do amor romântico para os chineses. Um candidato atraente tem que ter excelente formação, além de bens materiais e beleza (exigência que recai sobretudo nas mulheres). No fim das contas, May saiu da experiência não com um parceiro, e sim um novo emprego. Mas nem tudo na China é tradição, e a Sixth Tone traz uma outra abordagem para encontros: um programa de TV que promove relacionamento na terceira idade, um tabu no mundo todo e também na China.

reforma electoral en Hong Kong

Zheng He foi um grande explorador chinês do século XV. Sob seu comando, o império da China chegou a praticamente todos os cantos do mundo. Esta seção é inspirada nele e te convida a explorar ainda mais a China.

Tik Tok: quem usa a rede sabe como ela funciona e como e quem são os tiktokers — mas como é trabalhar no Tik Tok? Confira esse vídeo, que compara trabalhar para empresas do setor nos EUA e da China.

Em busca do negócio perfeito: acaba de ser publicado um paper de Tatiana Rosito e Vinícius Carvalho para a King’s College London sobre relações entre o Brasil e a China: qual a melhor estratégia?

Um jazz da paz: já que a vida anda agitada, trazemos um jazzinho de Dan Hsueh para acalmar os corações, com direito a um clipe relaxante.

Fotografia: a Zolima conta a história de Holga e Diana, duas câmeras fotográficas de brinquedo criadas em Hong Kong que foram de queridinhas cult a filtro do Instagram — e agora estão desaparecendo.

Olímpicas: aproveitando o término dos jogos de inverno em Pequim, a DW publicou uma galeria de fotos de momentos marcantes do evento.

Cafezinho sim, por favor: a cultura do café cresceu muito na China nos últimos anos, então que tal conhecer a história de 200 anos da paixão por este grão divino em Shanghai? Precisa ler bebendo aquele cafezinho.

Imagem de fundo vermelho, com texto em branco. Caracteres chineses cujo pinyin é 省吃俭用 (shěng chī jiǎn yòng).
省吃俭用 (shěng chī jiǎn yòng): Expressão usada para descrever como uma pessoa tem uma vida frugal, vivendo apenas com o mínimo necessário.

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