Fotografia em cores de monge budista sentado em uma cadeira, livro à mão, contemplando a natureza. Em Leschan, China.

Edição 184 – Direitos Humanos em pauta na China

Vacinas chinesas e gigantes de tecnologia na China

Estado de Direito com características chinesas. A discussão sobre Estado de Direito e Direitos Humanos esteve em pauta na China na última semana. Foi publicado um relatório do grupo de estudos do Politburo sobre o tema, como mostra a newsletter Tracking People’s Daily — que, como o próprio nome sugere, faz um detalhamento sobre as publicações do principal jornal da China. No texto, é destacada a fala de Xi Jinping sobre a importância de que seja implementado um “Estado de Direito Socialista”. O líder chinês diz que o sistema legal deve ser focado no combate à corrupção e destaca a importância de o país cooperar internacionalmente para assegurar o cumprimento da lei. Neste contexto, Pequim também realizou um fórum “Sul-Sul sobre Direitos Humanos”. O relato publicado pelo Global Times mostra uma crítica sobre o conceito de direitos humanos do Ocidente e a adoção de um tom defensivo em relação às acusações feitas por países como os Estados Unidos. Por fim, foi lançado nesta semana um livro sobre Direitos Humanos composto de discursos de Xi Jinping sobre o tema, como mostra o China Media Project. 

Falando em direitos humanos, saíram nesta segunda-feira (13) as sentenças de Jimmy Lai e mais sete ativistas que participaram em 2020 da vigília anual honconguense em memória aos acontecimentos da Praça da Paz Celestial. Lai, já preso sob a Lei de Segurança Nacional desde agosto, recebeu pena de 13 meses de prisão; o advogado Chow Hang-tung, 12 meses; e a ativista Gwyneth Ho, seis meses. Outros 16 ativistas que participaram da vigília, banida nos últimos dois anos por causa da pandemia de Covid-19, já cumprem suas penas de 10 meses de prisão, como lembrou o The Guardian. As condenações são mais um capítulo do cerco que vem se formando em torno da maior vigília em memória do 4 de junho, a única em território chinês.

Em baixa. A experiência do Weibo, de ter suas ações negociadas na bolsa de valores de Hong Kong, não deu muito certo. A empresa teve sua estreia marcada por uma queda de 7%, perda que se soma à oferta inicial já bem abaixo do que se esperava inicialmente, como esta matéria do SCMP conta. O Weibo, microblog controlado pelo grupo Sina e pelo Alibaba, já é listado na bolsa de Nova York, onde vinha tendo um bom desempenho. A estratégia de dupla listagem vem ao encontro do aperto regulatório promovido por Pequim, o que tem levado empresas chinesas a buscar ter seus papéis negociados “mais perto de casa”. Na semana passada, por exemplo, contamos que a Didi decidiu trocar Nova York por Hong Kong. Será que vai dar certo essa estratégia? Seguimos acompanhando por aqui.

Resoluções de ano novo do PCCh para a economia. Dezembro se aproxima do fim e, como todo mundo, o Partido Comunista Chinês também tem sua lista de resoluções para o ano que se aproxima. Uma reunião realizada na semana passada reflete o panorama do comando da China sobre as expectativas para a economia em 2022, ano-chave em que o 20º Congresso do Partido será realizado. A Xinhua noticiou as principais preocupações de Pequim sobre o tema: enfraquecimento da demanda e choques de abastecimento. Segundo a agência, “o ambiente externo está se tornando cada vez mais complicado, difícil e incerto”. Mas, se você quiser ir a fundo sobre os detalhes nas falas das lideranças e as interpretações sobre o que deve vir por aí, recomendamos aqui outras leituras. A Pekingnology fez uma tradução por conta própria da fala de Xi e comentou ponto a ponto o discurso, como a preocupação com o ritmo de crescimento, as questões regulatórias e os estímulos que serão necessários para que o PIB chinês se expanda. O Tracking People’s Daily também faz uma discussão sobre o que importa a partir da leitura do principal jornal do país, vale conferir.

Descentralizando a governança chinesa. A implementação de políticas públicas em países de proporções geográficas continentais não é fácil (né, Brasil?). Dois textos recentes trazem ótimas reflexões sobre as dinâmicas entre as decisões da autoridade em Pequim e a prática (e experimentação) feita na ponta, pelos governos locais. Para a revista Palladium, Dylan Levi King escreveu sobre o que Mao pensava a respeito, como as reformas de Deng se basearam na discussão proposta por Mao, e como Xi remove algumas dessas liberdades locais em troca de centralização. Por fim, ele analisa como a experimentação com governança digital e sua posterior centralização podem impactar a cultura política da sociedade chinesa.

O segundo texto é de Yuen Yuen Ang, para a Foreign Affairs. A acadêmica explica como a liderança do país é propositalmente ambígua quando quer que a burocracia local desenvolva soluções específicas para seus contextos. Ela traz, então, o conceito de prosperidade comum de Xi Jinping, analisa as instruções dele em discursos e reflete que dependerá das autoridades locais o sucesso ou não da política para reduzir a desigualdade. Para passar aquele cafezinho e ler os dois textos com calma.

Há 20 anos, a China dava um passo importante na arena global. Em 11 de dezembro de 2001, o país entrou oficialmente na Organização Mundial do Comércio (OMC). Na época, os Estados Unidos (cujo presidente Bill Clinton apoiou fortemente a entrada) e analistas consideravam que a inserção do país no mercado global seria um dos caminhos para a sua liberalização e reforma. Não foi exatamente o que aconteceu, mas a China se beneficiou amplamente do status de nação em desenvolvimento na organização — uma pauta que voltou à discussão agora. Se a sua ascensão econômica global já estava ocorrendo, a integração ampliou o leque de parceiros comerciais e as suas exportações. Para celebrar (ou talvez, refletir) sobre essas duas décadas, a última reunião da OMC focou também nesse tema. Como conta Doug Palmer para o Politico, o resultado foi uma série de críticas por parte de países, liderados pelos EUA, de práticas do governo chinês que teriam minado o sistema internacional de comércio. Alguns exemplos foram o uso pesado de subsídios e de trabalho forçado, prejudicando a economia de outras nações (inclusive a dos Estados Unidos). Pequim se defendeu, e também falou que apoia reformas na instituição.

Os segredos da maçã. O ano foi puxado para as big techs chinesas, mas a última semana pesou pro lado da estadunidense Apple. Uma reportagem publicada na terça-feira (6) pelo The Information revelou que o CEO Tim Cook teria feito um acordo secreto de US$ 275 bilhões (cerca de R$ 1,5 trilhão) com autoridades chinesas em 2016. O dinheiro deveria vir na forma de investimentos ao longo de cinco anos. Nesse período, a Apple investiu na Didi Chuxing, passou a armazenar dados dos usuários chineses do iCloud em servidores administrados pelo governo local e colaborou com a Universidade Tsinghua. Tudo isso para evitar que Pequim complicasse as operações da empresa na China.

Segundo o The Guardian, hoje o país é o segundo maior mercado da Apple, com crescimento anual de vendas de 83%; lá em 2016, as vendas caíram 17%, segundo a Reuters. Mas, ainda segundo a agência de notícias, nos últimos cinco anos, a Apple vendeu US$ 249 bilhões (R$ 1,4 tri, aproximadamente) de dólares na China, em Hong Kong e Taiwan – o que é menos do que investimento inicial. Por enquanto, nem Apple nem o governo chinês se manifestaram publicamente sobre o assunto, embora o South China Morning Post tenha identificado uma publicação em um blog operado pelo estatal Global Times defendendo os investimentos e sugerindo que críticas às atitudes tomadas por Tim Cook sejam motivadas por sinofobia.

Bienvenida, Nicarágua! Caiu como uma luva para Pequim a notícia de que o governo da Nicarágua passou a reconhecer o princípio de “Uma só China”. Com isso, caiu para 13 o número de países que mantêm relações diplomáticas com Taiwan, reclamada por Pequim como parte de seu território. O jornal nacionalista Global Times se apressou em publicar textos elogiando a decisão do país da América Central e aproveitando para criticar o comportamento dos Estados Unidos e da Lituânia, devido a declarações e ações recentes em relação a Taipei. Incomodou Pequim o fato de Joe Biden ter chamado Taiwan para uma conferência sobre democracia, como falamos aqui. Já quanto à Lituânia, um dos textos fala que a notícia serve como uma lição para o país que permitiu a abertura de uma embaixada taiwanesa em sua capital, Vilnius. Como consequência deste movimento, segundo a Reuters, o governo chinês estaria forçando empresas a boicotar a Lituânia.

Bonde do boicote. Depois dos EUA, agora Reino Unido, Canadá e Austrália anunciaram boicote diplomático à Olimpíada de Inverno em Pequim, a ser realizada em fevereiro de 2022. O Japão talvez entre na onda, mas a Coreia do Sul já disse que não vai boicotar e o presidente francês Macron falou que a ação é insignificante (teria que incluir atletas também, segundo ele). Enquanto isso, o secretário-geral da ONU, António Guterres, confirmou que vai. O governo chinês segue falando que não convidou oficialmente esse pessoal todo, reclamando da politização do evento. Pequim também fala que os envolvidos no boicote pagarão pelos seus atos — mas ainda não falou como. 

Pequenos imunizados. Em outubro, Pequim deu início a uma ambiciosa campanha que pretende imunizar completamente as crianças entre 3 e 11 anos contra a Covid-19 até o fim do ano. Como mostra esta reportagem do The New York Times, a iniciativa governamental, contudo, tem esbarrado na resistência dos pais, que apresentam alguma desconfiança sobre a segurança dos imunizantes para os pequenos. Por questões éticas, geralmente vacinas e medicamentos não são testados em crianças e idosos, o que foi um dos motivos para o governo chinês ter deixado essas duas parcelas da população por último na fila da vacina. 

Assuntos de mãe. A crise demográfica é uma realidade na China e, por isso, as condições de natalidade são tema frequente por aqui. Mesmo com o governo autorizando o terceiro filho, os jovens chineses não parecem muito entusiasmados em terem descendentes. Para tentar mudar essa tendência, mais recentemente governos de cinco províncias aumentaram em um mês a licença maternidade, como conta esta reportagem da Sixth Tone. Mas, mesmo com alguns estímulos, a verdade é que a situação das mulheres segue ainda muito complicada: neste outro texto, a Sixth Tone conta sobre as dificuldades das mulheres para voltarem ao mercado de trabalho após se tornarem mães. E, como todo empecilho não é pouco, na China as mães solo não têm as mesmas condições e direitos de mulheres casadas. A The Economist fez uma reportagem sobre a busca de igualdade para mães, independentemente de seu estado civil.

Ser feminista na China, como em qualquer outro lugar do mundo, nunca foi fácil — e a cada dia fica um pouco mais difícil. Foi notícia na última semana a demissão da funcionária do Alibaba que em agosto fez uma denúncia de abuso sexual contra seu chefe e um cliente. A empresa alegou na carta de dispensa que a funcionária teria causado um impacto negativo sobre a reputação da companhia. Também na última semana, o Weibo anunciou que silenciou ou baniu mais de 500 contas por postarem conteúdo de ódio ou “antagonismo de gênero”. A Sixth Tone destacou que o policiamento do discurso feminista na plataforma vem crescendo visivelmente pelo menos desde junho. No dia seguinte, o The New York Times publicou uma reportagem descrevendo como o governo chinês silenciou a denúncia de Peng Shuai, feita via Weibo, e como buscou controlar o debate sobre o assunto dentro e fora do país. Para ler com um chá e muita paciência.

Antro do crime organizado no centro de Shanghai, a “mansão vermelha” tornou-se tema de discussão na internet chinesa, segundo reportou o What’s on Weibo. Desde o ano 2000, o prédio aos poucos virou um centro de prostituição voltado para políticos e empresários de alto escalão. Isso tudo ocorreu sob o comando de Zhao Fuqiang, chefe do crime organizado condenado à morte em 2020 por seu envolvimento em estupro, prostituição, suborno e corrupção. Em duas décadas, Zhao teria lucrado cerca de 150 milhões de dólares (R$ 850 mi, aproximadamente). O caso voltou à tona agora por causa de duas matérias publicadas no China Business Journal contando histórias de horror de vítimas forçadas a trabalhar na mansão e trazendo fotos das instalações. Netizens têm mostrado preocupação e revolta com a impunidade às autoridades coniventes com o esquema durante os seus quase 20 anos de operação, especialmente após as matérias originais terem sido deletadas  e o assunto censurado nas redes.

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Zheng He foi um grande explorador chinês do século XV. Sob seu comando, o império da China chegou a praticamente todos os cantos do mundo. Esta seção é inspirada nele e te convida a explorar ainda mais a China.

Moda: em sua última edição, a newsletter Chaoyang Trap fez um interessante compilado sobre a indústria na moda e a China. Vale conferir.

Contraponto: na edição da Chaoyang Trap acima, afirma-se que as revistas de moda estão em decadência. Porém, a Radii comenta que o negócio vai de vento em popa após a decisão das publicações em se focar em B2B. Polêmica.

R&B chinês: a produtora musical Fishdoll acaba de lançar seu segundo álbum. A Radii conta aqui por que vale a pena subir o som e ouvir o trabalho fresquinho. 

Não está sendo fácil: o caractere 难 (“difícil”) foi eleito a palavra do ano por netizens da China continental e de Taiwan em votação do jornal Want Daily.  Enquanto isso, o ministério da educação chinês divulgou uma lista dos dez memes do ano, com 躺平 (“ficar deitado”) se destacando. Ninguém aguenta mais 2021.

Difícil comunicação: assim como na língua falada, a Língua Chinesa de Sinais tem diversos dialetos que dificultam, e muito, a vida das 20 milhões de pessoas com deficiência auditiva na China. O assunto é tema da The World of Chinese em uma matéria que vale um belo chazinho.

Ziguiriguidum: se no Brasil, temos campanha da vacinação com o Homem-Aranha, na China a informalidade e as piadas de uma conta da comissão municipal de saúde de Shenzhen viraram pauta polêmica nas redes chinesas.  

Imagem de fundo vermelho, com texto em branco. Caracteres chineses cujo pinyin é 有气无力 (yǒu qì wú lì) .
Expressão que significa literalmente “respirar, mas não ter força” e é usada para situações como as de fim de ano, em que as pessoas se sentem exaustas.

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