Fotografia em cores de cidade de Xi'an vazia exceto por duas pessoas em uma bicicleta.

Edição 186 – Situação de Xi’an desafia China às vésperas do Ano Novo Lunar

Vacinas chinesas e gigantes de tecnologia na China

Xi’An é a nova Wuhan. Em lockdown desde 23 de dezembro, a cidade dos famosos guerreiros de terracota tornou-se o centro das atenções na China. Com mais de 1.850 casos de Covid-19 detectados em um mês (número elevado para um país que adota tolerância zero ao coronavírus), a situação de Xi’an é a pior vista na China desde o surgimento da doença, no início de 2020, em Wuhan. Em entrevista a um veículo estatal, Zeng Guang, antigo chefe do Centro Chinês de Controle e Prevenção de Doenças, atribui a situação à variante delta. 

A imposição de confinamento total dos 13 milhões de habitantes levantou uma série de queixas por parte dos cidadãos envolvendo abastecimento, como mostra esta reportagem da BBC sobre troca de produtos entre os cidadãos. A jornalista investigativa Jiang Xue fez um diário nas redes sociais sobre o confinamento, e ela não foi a única — vale também acompanhar este relato aqui. Diante das reações negativas, as autoridades locais proibiram, por meio de mensagem de SMS, a população de publicar detalhes das restrições nas redes sociais. Esta reportagem da CNN fala ainda sobre as questões burocráticas que emperram a gestão na crise na cidade — como o caso de uma mulher grávida de oito meses que perdeu a gestação depois de ter atendimento hospitalar recusado por não apresentar um teste de covid. 

Entre as consequências para os negócios, o fechamento total da cidade impactou na fabricação de chips, como mostra esta reportagem da Caixin, e todos os voos internacionais foram cancelados. A China enfrenta uma situação delicada com a proximidade dos Jogos Olímpicos de Inverno de Pequim, em fevereiro, cuja abertura se dará poucos dias depois do principal feriado do país, o Ano Novo Lunar, em 1o de fevereiro. Além da preocupação com Xi’an,  a semana começou com notícias de que Tianjin, próxima a Pequim, teve transmissão local da variante ômicron. 

E por falar em impactos da Covid-19, a Caixin traz as expectativas para a economia chinesa em 2022, ano em que o gigante asiático deve manter as fronteiras fechadas. Ainda que o PIB da segunda maior economia mundial tenha continuado se expandindo, há indicativos de dificuldades de recuperação dos níveis pré-pandêmicos. Vale ler também esta reportagem da Reuters que trata sobre os planos de retomada do setor de aviação a partir do ano que vem, com previsão de normalização só lá pra 2025.

Ainda pensando em questões econômicas, trazemos aqui uma notícia que saiu no finzinho de 2021, quando já estávamos em recesso por aqui: o governo chinês publicou um white paper sobre o controle na política de exportação. Para se aprofundar no assunto, confira o compilado feito pelo China Neican.

O ano mudou, mas a saga da regulação segue. Já teve multa para Tencent, Alibaba e Bilibili por violações da lei antimonopólio que já apareceu aqui. Além disso, desde final de dezembro, uma série de novas regulações do governo chinês entrou em vigor. Três são bem importantes: de cibersegurança, de algoritmos e de pagamentos móveis. No âmbito de segurança de dados, empresas com informações de mais de 1 milhão de usuários precisarão passar por uma revisão de cibersegurança para abrir capital no exterior, como conta a Caixin. A abertura de capital para empresas chinesas, ou IPOs, fora do país foi um drama em 2020 e 2021, especialmente para as de tech — o Ant Group e a DiDi que o digam. As medidas, baseadas na nova lei de proteção de dados, foram lançadas na terça (4) e entram em vigor em 15 de fevereiro. Abrir o IPO na Bolsa de Hong Kong (que foi a opção da DiDi) parece estar liberado.

Estamos falando desde o ano passado sobre as interessantes regulações de algoritmos de inteligência artificial, mas finalmente saiu o documento final (em mandarim e em versão em inglês do China Law Translate) que vai guiar isso tudo e entra em vigor em 1o de março. Dá para ver os comentários da especialista Kendra Schaefer aqui neste fio, que incluem combate a fake news e recomendações de segurança para idosos (para evitar golpes financeiros). Para ficar por dentro, leia o texto de Matt Sheehan para a Carnegie sobre os órgãos e a estrutura chinesa de governança de IA.

No âmbito de pagamentos por telefone, o Banco Central da China lançou regulações em outubro, que entrarão em vigor também em 1o de março. O destaque é a necessidade das plataformas distinguirem melhor entre transações realizadas por pessoas físicas e jurídicas (o que impacta as  taxas), como destaca esta análise publicada na Sixth Tone. A mudança vem de carona na expansão do uso do yuan digital, após o lançamento de um app (e-CNY) para uso em 12 cidades chinesas e de plataformas de e-commerce passarem a aceitar a moeda nos seus aplicativos. Esses avanços podem moldar outros pagamentos digitais pelo mundo.

Não é só na Globo que tem retrospectiva. Uma série de textos lançados nas últimas semanas cobre o que rolou em 2021 na China (com algumas previsões). Aqui alguns destaques: o SCMP resgatou o que rolou nas regulações da área de tecnologia; enquanto o Protocol China cobriu como 2021 foi um bom ano para expansão das techs chinesas no resto do mundo e no que ficar de olho no setor para 2022. Para o Globo, Marcelo Ninio escreveu o que esperar da China neste ano que mal começou, assim como James Palmer para a Foreign Policy. O consenso inclui ômicron, Olimpíada de Inverno e o 20º Congresso do Partido.

Atentos ao Cazaquistão. Os protestos no Cazaquistão têm ganhado atenção do mundo todo e não poderia ser diferente na China, que faz fronteira com o país da Ásia Central. Nos últimos dias, o presidente Xi Jinping enviou uma mensagem de solidariedade ao líder cazaque Kassym-Jomart Tokayev. De acordo com a mídia estatal chinesa, Xi teria dito a seu contraparte que Pequim se opõe a qualquer “força estrangeira” que desestabilize o Cazaquistão com a intenção de empregar uma “revolução colorida”, termo usado para designar protestos em larga escala (normalmente em países que eram soviéticos) que levam a mudança de regime para governos alinhados com os EUA/Ocidente. Nesta segunda (10), o ministro de Relações Exteriores, Wang Yi, telefonou ao chanceler cazaque para falar sobre a situação. Além das preocupações com investimentos no país da Ásia Central, os chineses ficam atentos a qualquer manifestação de seus vizinhos que possam reverberar em Xinjiang. Se você quiser saber mais detalhes, o SCMP fez  um texto explicando por que a situação no Cazaquistão interessa à China.

Errata: Na edição por e-mail, havíamos definido “revolução colorida” como um “termo usado por países como a China e a Rússia para designar levantes estimulados pelos Estados Unidos e outros países ocidentais para provocar mudanças de regime político”, mas aqui consta a versão ajustada.

E, por falar em Xinjiang, a ideia da Tesla de criar um showroom na região autônoma gerou polêmica. Esta não é a primeira vez que Elon Musk se envolve em situações controversas com a China, aliás, como já contamos aqui.

Mineração de bitcoin sai da China e vai pro mundo, inclusive América Latina. Com o crackdown na atividade no país que minerava 71% das bitcoins do mundo, como já apareceu aqui, muita gente aproveitou a falta de regulação pelo mundo para migrar suas operações (inclusive comentamos do pessoal que foi para o Texas). No final do ano passado, 14 grandes empresas de criptomoedas levaram mais de 2 milhões de computadores para fora da China, segundo investigação do Financial Times, com Paraguai e Venezuela na lista dos seis principais destinos. Ainda que bem atrás de destinos como Rússia, Cazaquistão e EUA, a América Latina oferece produtos eletrônicos acessíveis. No caso do Paraguai, a hidrelétrica de Itaipu também oferece energia barata para mineração — e o lobby dos mineradores de cripto pode impactar o Brasil. Esta matéria do Diálogo Chino conta sobre essa movimentação e seus impactos ambientais.  

Falando em energia e América Latina, uma publicação da pesquisadora Juliana Jáuregui para o think-tank Carnegie discute a presença chinesa no setor de energia renovável argentino. Segundo a autora, os governos locais e central da Argentina souberam aproveitar a estrutura regulatória do país e o interesse de Pequim para desenvolver uma série de projetos de transição energética.

Diplomacia do rum e do chip. Lembra quando, lá em novembro, a Lituânia permitiu a abertura de uma “embaixada” de Taiwan na sua capital, ao que Pequim respondeu degradando as relações diplomáticas entre os países? Na sequência, a China barrou mais de 20 mil garrafas de rum lituano — que Taipei imediatamente comprou e recomendou para a população. Mais que isso, Taipei declarou a intenção de investir 200 milhões de dólares (mais de R$ 1 bilhão) no país europeu para a produção de chips. Isso mesmo após o presidente lituano Gitanas Nauseda declarar, na última semana, que a questão toda da embaixada não passou de um erro de nomenclatura sobre a qual ele sequer havia sido consultado.

Feliz ano novo? Entre o Natal e a virada de ano, Hong Kong mudou um bocado. Nos dias 23 e 24 de dezembro foram removidas de universidades locais três obras de arte que relembravam os acontecimentos da Praça da Paz Celestial: primeiro, o Pilar da Vergonha, que ficava na Hong Kong University e que já estava condenado desde outubro. No dia seguinte, foram-se os menos famosos mural da Lingnan University e estátua da Chinese University. Ainda antes do ano se encerrar (29/12), o jornal Stand News fechou após uma operação policial similar à que resultou no fim do Apple Daily em junho. A repercussão internacional foi crítica, o que foi respondido pelo Ministério das Relações Exteriores chinês com declaração de que a liberdade de imprensa é uma questão de segurança nacional e outros países não têm nada a ver com isso. Desse modo, não surpreende que outro jornal honconguense, o Citizen News, tenha também encerrado suas operações nos primeiros dias deste ano. A organização Repórteres Sem Fronteiras prevê que as condições de liberdade de imprensa em Hong Kong e Macau devem seguir se deteriorando no futuro próximo.

Auspício. A estatal Xinhua anunciou no último domingo (9) a nomeação do major-general Peng Jingtang para comandar o Exército de Libertação Popular em Hong Kong. Anteriormente, Peng foi chefe de gabinete da força paramilitar Polícia Armada Popular de Xinjiang e conduziu exercícios antiterrorismo na região.

Mudanças nos direitos da mulher. Em 20 de dezembro, o governo chinês publicou um rascunho de revisão da Lei de Proteção dos Direitos e Interesses das Mulheres. Destacam-se no novo texto a definição do conceito de discriminação contra a mulher e, conforme reforçou um editorial do estatal Global Times, o esclarecimento do que configura assédio sexual — crime que foi incluído no código civil que entrou em vigor no ano passado. O editorial também afastou acusações de que o novo documento seja apenas um gesto vazio em um momento em que o governo suprime os movimentos feministas do país. Para quem quer ler o rascunho completo, o site China Law Translate fez uma tradução não oficial para o inglês.

O dia a dia de quem vive com HIV na China é o tema desta reportagem na Sixth Tone que segue a rotina de Ma Tiecheng, ativista chinês que atua na prevenção do HIV no nordeste do país. O texto cobre as visitas que Ma faz a pessoas em situações vulneráveis, falando sobre preconceito e saúde mental. Em 2020, eram 1,05 milhão de pessoas com HIV/Aids na China. O país mantém uma taxa estável de novos casos, mas o número cresce principalmente entre jovens que abandonaram os estudos e homens idosos.

Em dezembro, o chefe do Centro Chinês de Controle e Prevenção de Doenças da China reconheceu os esforços da plataforma LGBTQIA+ BlueCity por uma campanha lançada no final do mês para a prevenção da doença. Já falamos da BlueCity aqui e das dificuldades que encontrou, optando por se posicionar como uma health tech em meio a um ambiente hostil para iniciativas LGBTQIA+. Outras campanhas de conscientização têm sido conduzidas por livestream.

Aliás, um dos livros do nosso Clube do Livro foi O sonho da aldeia Ding, de Yan Lianke, que fala da epidemia de HIV/Aids na China nos anos 90. Fica a dica para a sua lista de leitura de 2022. 

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Zheng He foi um grande explorador chinês do século XV. Sob seu comando, o império da China chegou a praticamente todos os cantos do mundo. Esta seção é inspirada nele e te convida a explorar ainda mais a China.

Para babar: um dos novos hits na China é um documentário em seis episódios sobre o churrasquinho, a famosa comida de rua e seus aspectos sociais. Dá para ver no YouTube, em mandarim, sem legendas.

Salvando para depois: a edição de novembro da revista acadêmica The China Quarterly foca em artigos sobre o centenário do Partido Comunista da China.

Livro de fotografia: a obra Rooms within China reúne 100 fotos de 20 fotógrafos chineses contemporâneos. O SupChina fez uma matéria sobre o livro e as atividades do Tofu Collective, grupo que idealizou sua publicação.

Top: as palavras “mais representativas” do ano de 2021 na China foram meio chatas, sejamos honestos, mas os memes não decepcionaram.

Estrelados: a China está entre os países com mais restaurantes classificados com as famosas estrelas do Guia Michelin. Acaba de sair a lista atualizada do fim de 2021, confira quem são os 47 indicados. 

Imagem de fundo vermelho, com texto em branco. Caracteres chineses cujo pinyin é dù rì rú nián.
度日如年 Dù rì rú nián é uma expressão usada para se referir à sensação de quando o tempo passa se arrastando e um dia parece ter a duração de um ano. Que em 2022 o tempo passe um pouco mais devagar para todos!

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