Fotografia em cores da CEO de Hong Kong Carrie Lam, visitando um posto de testagem contra a Covid-19. Carrie Lam está usando uma máscara cirúrgica.

Foto de Studio Incendo, CC BY 4.0 , via Wikimedia Commons

Edição 198 – O adeus de Carrie Lam e a luta de Shanghai contra Covid

Vacinas chinesas e gigantes de tecnologia na China

Afinal, o que se passa em Shanghai? Nem mesmo o lockdown em fases, sobre o qual falamos aqui, parece ter aliviado a alta de casos de Covid-19. Uma subvariante da ômicron foi encontrada na maior cidade chinesa, levando à testagem em massa de todos os 25 milhões de habitantes. Os casos diários ultrapassam 13 mil, um número bastante elevado para a política de tolerância zero à doença e, como conta o SCMP, a mídia estatal tem trabalhado para tentar garantir o apoio da população à política adotada pelo governo de Xi Jinping. O SupChina, porém, mostra que as medidas severas têm criado reações negativas. Entre as queixas estão separação de crianças dos pais, problemas de abastecimento e impedimento de tratamento de doenças graves, como pacientes que precisam de hemodiálise diária e uma enfermeira que morreu de crise de asma por falta de atendimento médico. Também não pegou bem ter sido revelado, em reportagem do The Wall Street Journal, que mortes foram ocultadas no maior hospital de idosos da cidade. A história também foi contada pela Caixin, como mostra este tweet, mas o texto já foi apagado

As imagens de Shanghai vazia têm se espalhado pela internet, assim como esta, de um robô circulando pelas ruas da cidade, pedindo a colaboração das pessoas. O What China Reads publicou a tradução de uma pesquisa feita pelo centro de monitoramento de Shanghai sobre os hábitos de vida das pessoas em meio à crise sanitária. Além do impacto humano, claro, as medidas levaram ao fechamento de fábricas, como o caso da Volkswagen

Tem Plano Quinquenal pra todo mundo. O governo chinês, através da Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma e da Administração Nacional de Energia, lançou o 14º Plano Quinquenal para Modernização do Setor Energético da China no final de março. O documento de 41 páginas (ainda só em mandarim) já havia circulado entre agências do governo em janeiro e agora está sendo divulgado amplamente. Esta matéria da Xinhua resume alguns pontos, bem como a newsletter do China Dialogue. De modo geral, o plano traz diretivas para descarbonização, desenvolvimento de geração de energia solar e eólica em larga escala, assim como de energia nuclear segura. A ideia é construir essa mudança a partir de três aspectos: uma cadeia de fornecimento energético estável, promoção de produção e consumo de energia verde e modernizar a cadeia de suprimentos do setor. Na semana passada, o Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC) realizou evento online sobre o papel chinês na transição energética mundial. 

Falando em modernização e energia: no mês de março, a gigante chinesa de carros BYD cessou a produção de automóveis puramente movidos a combustíveis fósseis. Agora a empresa só fará carros elétricos ou híbridos, como conta o SCMP. Isso vem num momento interessante para o brasileiro se ligar, como contou a newsletter The Brief: tem uma nova Frente Parlamentar Mista pela Eletromobilidade recém-criada pelo Senado Federal. O combo veículos elétricos e a América Latina já apareceu aqui antes.

Bye-bye. Conforme já era especulado, a Chefe Executiva de Hong Kong Carrie Lam anunciou nesta segunda-feira (4) que não concorrerá à reeleição. Uma boa decisão, dada sua impopularidade. A notícia veio na sequência de uma semana crítica. Na última quarta-feira (30), dois juízes britânicos renunciaram aos seus cargos na corte de apelos finais de Hong Kong para se dissociar do que veem como uma erosão de liberdades na RAE chinesa. A presença desses juízes e advogados estrangeiros (coisa da commonwealth) é considerada por observadores internacionais como uma garantia e termômetro da imparcialidade do sistema. No dia seguinte, saiu o relatório semestral do Reino Unido sobre sua ex-colônia, segundo o qual a Lei de Segurança Nacional vem sendo usada para cercear direitos garantidos aos honconguenses pelo acordo sino-britânico. Há recibos para isso, ao menos no que diz respeito à liberdade de imprensa, considerada satisfatória por apenas 28,8% dos honconguenses, segundo pesquisa — em 1997, o número era 78,4%. Ao longo das próximas duas semanas, devem ser anunciados os “patriotas” que concorrerão ao cargo de Carrie Lam — e o sentimento em Hong Kong parece ser de pessimismo: segundo um jornal local, o maior sucesso deste ano para o festival QingMing é um pack de oferendas para que os espíritos ancestrais possam emigrar.

Acabou a mamata. Nova legislação pretende regular a atuação de livestreamers — uma indústria de 30 bilhões de dólares na China. A Administração Tributária chinesa publicou uma circular em conjunto com a Administração de Ciberespaço e a Administração de Regulação do Mercado propondo uma promoção e desenvolvimento mais sadios da indústria, incluindo a responsabilidade com impostos. A notícia veio na quarta (30), como contaram a Reuters e a CGTN.

Segundo fontes ouvidas pelo Wall Street Journal, as novas regras devem incluir controles sobre a quantidade de dinheiro que os influenciadores podem receber de cada pessoa (as gorjetas), de modo a reduzir o excesso de gastos online. Outras preocupações devem ser diminuir o tempo de exposição de jovens a esses vídeos, bem como regular o conteúdo de alguns desses criadores, como resumiu o Protocol China. Não é novidade que Pequim está de olho na evasão fiscal de celebridades e livestreamers. Em dezembro, Viya, a rainha das vendas online, viu seu império colapsar ao ser multada em 210 milhões de dólares (1,3 bilhão de yuans) por evasão fiscal e perder suas contas em redes sociais. Esta matéria de janeiro de Shen Lu conta mais sobre o caso e a regulação da indústria de livestream. Vale uma lida neste artigo acadêmico de 2019 sobre as tensões sociais, políticas e econômicas que fazem parte de ser um livestreamer na China.

A situação humanitária do Afeganistão foi tema de reunião de cúpula de dois dias terminada na quinta-feira (31), na cidade de Tunxi. Além do ministro das Relações Exteriores Wang Yi, o evento contou com a presença de chanceleres de países vizinhos (Irã, Paquistão, Rússia, Tajiquistão, Turcomenistão, Uzbequistão) e de outros países convidados, além de representantes do governo do Talibã. Embora continue sem reconhecer oficialmente o atual governo afegão, a China admitiu que essa é uma possibilidade para o futuro. Chamou a nossa atenção o fato de Wang ter mencionado que o Talibã precisa respeitar a constituição original do país para ter mais chances de ter seu governo reconhecido internacionalmente. No comunicado final, os chanceleres dos países vizinhos pediram ao Talibã empenho no combate ao terrorismo, reconciliação étnica, um governo inclusivo e a proteção aos direitos das mulheres e das crianças. OTAN e EUA foram alfinetados no documento, cujo texto afirma que países responsáveis pela atual situação no Afeganistão devem cumprir com suas responsabilidades.

Paralelamente, a China também sediou um encontro sobre o mesmo tema com representantes da Rússia, dos EUA e do Paquistão. Sergei Lavrov, ministro das Relações Exteriores russo, foi a presença que mais chamou atenção, porque essa foi sua primeira viagem à China após a invasão da Ucrânia. No entanto, a reunião da “troika estendida”, como é conhecido o grupo, terminou sem comunicado final. A imprensa estatal chinesa culpou os EUA por  se recusarem a assinar o documento conjuntamente com a Rússia devido à guerra na Ucrânia.

Falando de intensas atividades diplomáticas chinesas, Shi Jiangtao e Lynne O’Donnell escreveram análises para o SCMP e a Foreign Policy falando do que está impelindo Pequim a buscar esse estreitamento de laços com países vizinhos. Um dos motivos? As atenções de Washington se voltaram para a Europa.

A primeira reunião de cúpula em dois anos entre China e União Europeia (UE) aconteceu virtualmente na sexta-feira (1º). Pandemia e meio-ambiente foram alguns dos temas debatidos, mas, como não poderia deixar de ser, a guerra na Ucrânia dominou o evento. Os representantes da UE advertiram os chineses contra qualquer tipo de apoio à Rússia, ressaltando que isso impactaria negativamente as relações com o bloco europeu, como noticiou a Al Jazeera. Já a China rejeitou a divisão do mundo em blocos rivais e pediu que os interesses securitários de todos os envolvidos no conflito sejam ouvidos, segundo a Xinhua. Bruxelas e Pequim concordaram com a necessidade de uma trégua urgente e de avanços nas negociações de paz.

Ao menos cinco acadêmicos que vivem na China foram impedidos de fazer suas apresentações remotamente durante a reunião anual da Associação de Estudos Asiáticos. Segundo investigação da NPR, houve ao menos um caso em que o pesquisador chegou a expor seu trabalho, mas foi posteriormente visitado e questionado pela polícia. Outros acadêmicos desistiram de participar por recomendação de suas instituições. Esse episódio levanta a preocupação, entre intelectuais, de que a academia chinesa esteja se isolando do restante do mundo. De acordo com uma lei aprovada em 2016, todos os pesquisadores na China devem buscar aprovação institucional antes de se envolverem em atividades acadêmicas internacionais.

O inverno se aproxima? Se as big techs chinesas eram motivo de entusiasmo no país e mundo afora, o cenário parece ter mudado. Desde meados de março, começou-se a falar sobre demissões de funcionários de grandes empresas como Tencent, JD.com e Alibaba, e o assunto agora volta à tona, como mostra a Caixin. O cenário de demissões estaria diretamente ligado ao crescimento regulatório sobre o setor que o governo chinês tem promovido desde 2021, sobre o qual falamos aqui desde o início do ano passado. Em que pese o cenário ruim, a ByteDance  — detentora do TikTok — teria elevado seu valor de mercado para 400 bilhões de dólares, liderando as startups unicórnio do mundo, segundo o SCMP. 

Lutas diárias das pessoas trans na China. Uma das celebridades mais conhecidas no país asiático é a apresentadora de TV Jin Xing. Ela foi uma das primeiras personalidades públicas a fazer a cirurgia de afirmação de gênero e tratar abertamente sobre o assunto, em 1995. Porém, sua visibilidade e conquistas não são representativas da maioria da população trans na China. Rejeição familiar, estigmatização social, desemprego, saúde mental precária e falta de proteção jurídica são algumas das batalhas diárias dessas pessoas. O SupChina publicou uma longa matéria sobre essas questões com relatos de homens e mulheres trans que moram na China. Vale um chazinho.

Como a sociedade chinesa viu o desastre em Guangxi? Acidentes aéreos costumam gerar comoção em qualquer sociedade, e não poderia ter sido diferente no caso da tragédia ocorrida há poucas semanas na China. O China Neican fez um compilado sobre as reações da sociedade chinesa em relação à queda do avião na região autônoma de Guangxi. Além dos habituais lamentos sobre um acontecimento como esse, o caso recente na China ainda foi marcado por censura e ocultação de informações, como mencionamos na semana passada.

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Zheng He foi um grande explorador chinês do século XV. Sob seu comando, o império da China chegou a praticamente todos os cantos do mundo. Esta seção é inspirada nele e te convida a explorar ainda mais a China.

Prospectivas: a revista The Diplomat publicou uma análise com quatro cenários possíveis para o futuro das relações China-União Europeia.

Arqueologia: os guerreiros de terracota foram descobertos há quase 50 anos e o SupChina publicou um texto sobre os achados das escavações e o que ainda pode ser desvendado.

Falando em escavação: fósseis descobertos em Yunnan apontam para uma nova espécie de dinossauro com armadura, a primeira identificada na Ásia.

Culinária: você conhece o molho lu? De marinada à finalização de pratos, ele está presente em grande parte da cozinha chinesa (com variações locais, claro) e a NPR fez uma matéria sobre sua história, que data do século V.

Fotografia: a Gushi traz um interessante (e também angustiante) relato de como é trabalhar fotografando cirurgias plásticas. 

Patrimônio cultural: reparou nos buquês entregues nos pódios da Olimpíada de Inverno de Pequim? Eles foram feitos com a técnica de tricô Haipai, um bem intangível de Shanghai, como conta a Sixth Tone. 

Motel para namorar: o brasileiro já está por dentro dessa tendência de motel que aluga quarto por hora com finalidade específica, mas a jornalista Sowmiya Ashok (fascinada pelo conceito) fez uma matéria com a  fotógrafa Chen Shu-Chen, que registrou uma série de imagens do “depois” em quartos de motéis em Taiwan. 

Imagem de fundo vermelho, com texto em branco. Caracteres chineses cujo pinyin é 天下为公 tiān xià wéi gōng.
天下为公 tiān xià wéi gōng – Expressão usada para dizer que o mundo todo é uma comunidade só. Ou que, abaixo do céu, tudo é compartilhado.

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